segunda-feira, 16 de julho de 2012



“Jogo Performativo”; por Eduardo de Paula –[1]

§ Relativo ao ator/performer e aos aspectos de jogo observados no discurso do entorno da performance; 1. Colocar-se em jogo de cena considerando toda a sua previsibilidade e a imprevisibilidade; 2. Absorver os acidentes que acontecem no ato vivo do jogo de cena; 3. Considerar tanto os traços ficcionais quanto os biográficos; ou seja, o ator/performer joga desempenhando pelo menos duas linhas de ações: o personagem ficcional e a sua própria biografia; 4. Consciência de estar em um lugar instável e, por isso, em risco – o que gera um estado de prontidão para jogar com tudo o que ocorrer no “aqui e agora”.

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Este verbete está diretamente ligado às proposições da pesquisa intitulada “Jogo e Memória: Essências – o procedimento do Círculo Neutro como base para os processos de preparação e criação do ator/performer”[2]. Jogo é uma das essências principais observadas neste procedimento, colocado em ação de maneira tal que o ator/performer é levado a relacionar-se com o previsível e o imprevisível, assumindo os riscos e absorvendo os acidentes das ações que se desenvolvem no momento do ato. Estes aspectos são também observados no “discurso do entorno da performance”, e este é o motivo pelo qual estamos denominando-o como jogo performativo.

Essa ideia de jogo [...] encontra-se no coração das teorias da performance e dos performance studies. [...] a maior parte das noções de jogo implicam em princípios de descontração, liberdade e divertimento. [...] jogo pode estar em tudo e em parte nenhuma, tudo imitar e não ser identificado por ninguém(...)[3] (Féral; in Mostaço,  2009, p.57)
Vale ainda explicitar que “jogo performativo” não é uma modalidade de jogo, mas principalmente certa Atitude[4] que o artista toma frente ao jogo no momento que se coloca em relação a ele, considerando a “vida viva” que corre no “aqui agora”, com toda a sua previsibilidade e imprevisibilidade, seus acidentes e riscos. É então, a partir do paralelismo observado pelas proposições pertinentes ao amplo campo de jogo[5] e a performance que estamos utilizamos o conceito “jogo performativo”.

Essa valorização do instante presente da atuação faz com que o performer tenha que aprender a conviver com as ambivalências tempo/espaço real X tempo/espaço ficcional. [...] (Cohen, 2011, p.98)

Faz-se ainda pertinente considerar a linha de pesquisa “Pedagogia do Teatro: a formação do artista teatral” para melhor compreender as acepções filosóficas, políticas e atitudinais contidas na ideia de jogo performativo. Considerando que as referências do artista teatral no início de sua jornada podem ser frágeis e/ou reveladora de certo "lugar comum", se evidenciar teatro com aquele do tipo à italiana e trabalho de ator com interpretação de personagem, fazendo-se necessário ampliar este campo referencial primeiro, e apresentar as inúmeras possibilidades das linguagens cênicas percorridas ao longo da história, a diversidade de utilização do espaço/tempo e das distintas possibilidades de ação do ator/performer.

No núcleo do conceito de performatividade está a acepção de "virtual" (ou, como querem alguns, de "simulação"). Ela absorve tudo o que está na circunvizinhança de "símil, como se, em lugar de, experimento, tentativa, ensaio, fingimento" ou "disfarce", quando tais termos designam ou referem operações ligadas à concepção/execução de um ato ou performance. Tais ações podem preceder ou serem simultâneas ao próprio agir, com ele guardando relações íntimas e indissociáveis. Onde a ênfase incide, em todos esses casos, sobre o modo como são realizadas as ações. (Mostaço, 2009, p.35)

A partir da ciência e experimentação de proposições artísticas fundamentadas na ideia de ”jogo” considerado a partir do discurso do entorno da performance  - “jogo performativo -, acreditamos que o ator/performer poderá desenvolver habilidades mais potentes para colocar-se em cena com prontidão e organicidade.

Bibliografia
COHEN, Renato. Performance como linguagem. SP: Perspectiva, 2011.
GLUSBERG, Jorge. A Arte da Performance. SP: Perspectiva, 2007.
MOSTAÇO, Edélcio et al (Org.). Sobre Performatividade. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2009.







[1] Verbete referente à disciplina “Encenações em Jogo: Experimentos de Criação e Aprendizagem do Teatro Contemporâneo” – Prof. Marcos Bulhões Martins – PPGAC – ECA/USP, 2012.
[2] Pesquisa de doutorado, iniciada em 2012, sob orientação do Prof. Dr. Armando Sérgio da Silva – PPGAC – ECA/USP.
[3] (negritos nossos).
[4]  “Atitude” diz respeito tanto ao viés filosófico, quanto político.
[5] Jogos tradicionais, jogos dramáticos, jogos teatrais, jogos esportivos, jogos sociais, etc.

2 comentários:

  1. a proposta é bem interessante, mas para poder conceituar jogo performativo, penso que o verbete mereceria um texto bem mais fundamentado,com mais referencias, espero que vc possa densenvolver uma versão ampliada, para além dos limites da disciplina..

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  2. http://www.portalabrace.org/viicongresso/completos/pedagogia/ROBERTO_IVES_ABREU_SCHETTINI_-_JOGOS_PERFORMATIVOS_-_USO_DO_JOGO_NA_FORMA____O_DO_PROFESSOR_DE_TEATRO.pdf

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